terça-feira, 17 de agosto de 2010

A Mulher esqueleto

Estou passando por uma fase difícil... Meu amor, companheiro, amigo e amante está partindo para um mundo totalmente novo, ele estará entre belos castelos esquecidos e uma cultura desconhecida... Que o relógio e o tempo virem meus amigos, porque ficar longe dele vai ser cansativo, depressivo e triste! Te amo meu amor... Mesmo tendo alguns conflitos, discórdia, eu sinto que nosso vínculo é mais forte, fazendo com que ultrapassemos invernos rigorosos, primaveras abundantes e longas caminhadas, sempre. O nosso amor não significa um flerte ou uma procura de mero prazer para o ego, mas um vínculo visível composto da força psíquica da resistência, uma união que prevalece na fartura ou na austeridade, que passa pelos dias e noites mais simples e mais complicadas. Compartilhamos sonhos futuros bem como tristezas passadas, um curando o outro...

Esse conto é dedicado ao meu amor, tão verdadeiro e delicado que me arrepia a alma toda vez que eu o leio.


A Mulher esqueleto

Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes. Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada. O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu — logo em quê! — nos ossos das costelas da Mulher- esqueleto. O pescador pensou: "Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!" Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas. O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava já havia chegado à superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.

— Agh! — gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte.
— Agh! — berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado, pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.
— Aaagggggghhhh! — uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks. O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal. Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela — aquilo — jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro, um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.

— Oh, na, na, na. — Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.
— Oh, na, na, na. — Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano. Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra — não tinha coragem — para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos. O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem. A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos. Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm! Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.

— Carne, carne, carne! Carne, carne, carne!
— E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam. Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram abraçados um ao outro, enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem.


Repetidas vezes é observado um fenômeno em amantes, independente do sexo. Seria mais ou menos assim: duas pessoas começam uma dança para ver se elas vão querer se amar. De repente, a Mulher-esqueleto é fisgada por acaso. Algo no relacionamento começa a diminuir e cai em entropia. Com freqüência, o doloroso prazer da excitação sexual se abranda, um passa a perceber o lado frágil e ferido do outro, ou ainda um deixa de ver o outro como "material digno de admiração", e é aí que a velha careca e de dentes amarelos vem à tona. Parece tão repulsivo, mas esse é o momento perfeito em que se apresenta uma verdadeira oportunidade de demonstrar coragem e de conhecer o amor. Amar significa ficar com. Significa emergir de um mundo de fantasia para um mundo em que o amor duradouro é possível, cara a cara, ossos a ossos, um amor de devoção. Amar significa ficar quando cada célula nos manda fugir. Quando os parceiros são capazes de suportar a natureza da vida-morte-vida, quando eles conseguem compreendê-la como uma continuidade — como uma noite entre dois dias — e como aquela força geradora de um amor que resiste por toda a vida, eles conseguem encarar a Mulher-esqueleto no relacionamento. Juntos, então, os dois se fortalecem; e os dois são chamados a uma compreensão mais profunda dos dois mundos em que vivem, a do mundo concreto e a do mundo do espírito.


Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. A força vem do espírito. Quando temos esse tipo de relacionamento, não saímos mais por aí à caça de fantasias, mas nos tornamos conhecedores das mortes necessárias e nascimentos surpreendentes que criam o verdadeiro relacionamento. Quando encaramos a Mulher-esqueleto, aprendemos que a paixão não é alguma coisa que se vai "obter" mas sim, algo gerado em ciclos e distribuído. Dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto nas delicadas camadas do ser criado quando duas pessoas se amam, existe um coração e um alento. Enquanto um lado do coração se esvazia, o outro se enche.

Boa viagem meu amor...


Texto retirado do livro Mulheres que correm com Lobos - CLARISSA PINKOLA ESTÉS, Ph.D. Cheyenne Wyoming

9 comentários:

Anônimo disse...

Mariáh,que texto emocionante!Adorei a leitura.
Sucesso no blog.

Ricardo Gimenes disse...

Obrigado meu amor ...
ainda nao caiu a ficha de q minha vida sera quase totalmente diferente e logo a nossa vida .
eu te amo mto ... mto mais do q imagina , essa faze vai ser dura mas de grande cressimento para ambos , essa solidao e independencia vai nos ajudar mto em um futuro mais responsavel e feliz !
estarei contando os dias para a sua chegada
bjos minha gata !
te amo mto

Mariáh Voltaire disse...

Ver aquele avião te levando embora acabou comigo...

Mas saiba que estou feliz!
Um grande passo para nós!

Te amooo

A. Harff disse...

Eu sei exatamente como é essa sensação de ver um amor partir, a distância é algo que realmente não deveria existir enquanto amamos. Mas pense que cada experiência vem por um motivo maior, até nobre, e cada dor nos faz mais fortes como mulheres e pessoas. Adorei seu blog, suas fotos antigas são lindas, gosto muito desse estilo!

um beijão pra ti,
minha dica é concentrar suas enegerias na dança, agora que o seu amor está longe.

:**

Mariáh Voltaire disse...

Pois é...
distância é uma coisa ruim, mas tbm uma prova!

eu tenho muito no que me concentrar, estou terminando minha facul da Artes Visuais, e não tá fácil!!!

mil beijos

valeu pela força...

Helô Piercer disse...

Olá querida!
Muito obrigada mesmo!Seu blog tbm é lindo e pretendo 'devorá-lo' assim q tiver mais tempo^^
Então,tbm não consegui baixar nada dela,a não ser com o promgrama ATube Catcher,que converte os videos do youtube,no formato q vc quiser..

Bjão até mais!^.~

Roy disse...

E a primeira vez que visito o blog e justamente caio, como e de comum em minha vida, em um texto que tanto significa para a minha. Desejo que seu amor seja sempre o grande amor e o continuo amor que descreve no texto. Eu choro a ausencia do meu, momentaneamente.

Um forte beijo, estas "linkada" em casa,

RF

www.osintensos.blogspot.com

Celia Cris Silva disse...

Mariah, chorei quando li esse conto pela primeira vez e chorei de novo, agora, ao ler seu blog. Neste exato momento, você e Ric estão juntos em corpo e espírito, e creio que os corações batem em uníssono. Que vocês sejam sempre cúmplices na vida. Beijooooooooooo

Mariáh Voltaire disse...

eu tbm me emociono com esse conto...
é lindo demais!!!